As intermitências da Pátria


A Pátria é, segundo o mais simples dos dicionários, o país em que se nasce e ao qual se pertence como cidadão. Um olhar mais demorado nesse conceito talvez revele ao observador mais curioso, que há na palavra qualquer semelhança com uma outra: paternidade.

Essa associação, feita de forma tão despretensiosa nesta crônica, serve apenas para explicar melhor essa ideia de pertencimento, de identificação. É daí que aflora um sentimento, o patriotismo, um amor que, de alguma misteriosa forma, nos liga aos símbolos, aos gestos, ao idioma, aos traquejos, às qualidades e defeitos que identificamos como tipicamente brasileiros.

É claro que toda simplificação de sentimentos é – no mínimo – arriscada. Este risco, no entanto, assumo, aqui, de maneira consciente e pedindo, àqueles que de alguma maneira se incomodarem com os conceitos, o benefício da licença poética.

Esse sentimento, entretanto, aparece, no caso brasileiro, de forma mais ou menos intensa a depender de paixões políticas, a depender do momento da economia, a depender da violência e de outras mazelas tantas. Isso se deve, justamente, ao fato de que o ‘brasileiro é um homem cordial’, como diria Sérgio Buarque de Holanda. E nessa afirmação não há nada daquela cordialidade de delicadezas ou sutilezas! O brasileiro é cordial por ser movido pelo coração, pelos sentimentos.

Mas nas intermitências de patriotismo, apesar de intensas, tendem a se curar, com algumas exceções raras, em tempos de Copa do Mundo.

Por mais que a camisa amarela da seleção brasileira não seja um dos símbolos nacionais – por lei protegidos – parece servir à união de vozes para cantar à capela o hino nacional, parece servir para a contemplação da bandeira. Enfim, serve como um ingrediente secreto da misteriosa amálgama que nos une como brasileiros.

Sob essa mesma veste, todos os grupos políticos se unem, todos os que não se suportam se abraçam, todos os indiferentes cerram os punhos esperando que alguém suba para cabecear a bola lançada de escanteio. É parte de um inevitável que se manifesta em momentos como esse.

O que dará a liga dessa argamassa quando o sonho acabar, seja em festa ou em luto – como em 2014 –, e todos resvalarem inexoravelmente para suas rotinas, seus cargos, seus postos, suas frustrações, suas opiniões e seus pequenos ódios cultivados com ainda mais viço pelo adubo eleitoral?

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Talvez a melhor cena que a Copa tenha proporcionado, até agora, seja aquela de México x Suécia no último dia 27. Precisando apenas do empate, o México perdeu de 3 a 0. Contrariando qualquer lógica, os torcedores mexicanos que estavam no estádio irromperam em festa aos gritos de um gol que não acontecia ali. Era o gol com que os coreanos selavam o destino da Alemanha, campeã de 2014, naquele irremediavelmente inesquecível 7 x 1.

Gratos, os mexicanos foram até a embaixada da Coreia, jogando o embaixador para o alto e lhe servindo tequila. É surpreendente e inevitável o contágio da alegria.

É misteriosa a matéria prima do patriotismo.

É misteriosa a matéria prima do futebol.

#RicardoAlvesLima

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