Eu te desejo uma tarde improdutiva!


Você tem que ser produtivo, amigo. O tempo é muito precioso, fica cada vez mais escasso no mercado e, como matéria rara que é, vale muito. Você precisa aproveitar bem este pouco tempo que tem, meu caro. Precisa ser produtivo. Render ao máximo: estudar pouco, mas estudar bem, bem concentrado, bem consciente; dormir pouco – talvez –, mas um sono bom, relaxante; ouvir só uma música por dia, mas que seja a sua preferida; ler uma página só por dia, mas de um livro que preste.

É a ordem do dia: seja produtivo! Renda ao máximo! Percebi que já é de bom tom desejar uma tarde produtiva a todos. Um bom amigo, um dia desses, despediu-se de mim, pela manhã, e me desejou uma tarde produtiva. Sei da boa intenção das suas palavras. Ora, ninguém quer chegar ao fim do dia com um monte de pendências ou, pior, com uma consciência bem pesada por não ter rendido ao máximo.

Mas eu, nesse momento, penso que se aquela intenção era mesmo boa, ela deveria se acomodar em outras palavras. E é por isso que eu te desejo, ao contrário de tudo, remando contra a correnteza – daquelas correntezas de chuva – uma manhã, uma tarde e, se possível, uma noite improdutiva!

Não que eu deseje, amigo leitor, que você seja mal sucedido em seu projeto, vagaroso em seu trabalho, displicente com sua tarefa. Não, não me leve assim a mal, não é isso.

Desejo, e quero mostrar o quanto há de bom desejo nisso, que você não se cobre tanto assim, para se permitir uma pequena improdutividade, ou uma grande até, se lhe for possível essa dádiva. Mude então, um pouco, a ordem de prioridades: estude bastante, com vagar, quase uma preguiça, demore nos temas que lhe agradem, leia com tranquilidade aquela nota de rodapé que explica o tema que ninguém dá importância; durma muito, com displicências nos horários, cochile depois do almoço; ouça várias músicas por dia, todas novas de preferência, inclusive para ter chance de encontrar novas músicas preferidas; leia o quanto quiser por dia, ou o quanto sua vista aguentar, qualquer coisa que te faça querer continuar lendo, seja uma autoajuda, um romance, uma poesia.

Mas não se preocupe com essas tarefas assim como tarefas. Assista jogos de futebol, no estádio se puder; coma coisas diferentes; procure outros sites; outros textos; outra forma de lazer; outra forma de exercitar-se; outro bar; uma cerveja diferente; uma cantada nova; um penteado novo; mude a mão com que penteia o cabelo ou escova os dentes.

Está tudo aí, amigo, mas só para aqueles que não se trancaram na rotina para um dia sair, sabe-se lá quando, sabe-se lá como; só para aqueles que não se contentaram na obrigação mais maquinal de ser tão produtivos.

Penso agora, com preocupação, nesse amigo, terminando o doutorado, mergulhando na voragem da rotina até as migalhas do tempo, enquanto sua filhinha cresce, enquanto sua mãe envelhece, enquanto seus olhos se temperam de rugas. Caro amigo, já há muito no mundo dizendo o contrário. É por isso, e só por isso, que eu te desejo: tenha uma tarde improdutiva!


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