Uma crônica para agosto


O oitavo mês do ano é cercado de uma reputação que, às vezes, não lhe é justa. Alguns o tratam como “o mês do desgosto”, outros a ele se referem como um mês interminável. Sabe-se, no entanto, que seu nome tem origem numa homenagem a César Augusto, um dos tantos césares que governou Roma e seu império.

Para nós, no entanto, algumas circunstâncias se destacam. Para os professores este mês marca o início efetivo do segundo semestre, após as férias do meio do ano. Já para os advogados é, justamente, o mês em que se comemora a data do seu dia, o 12 de agosto.

Nessas duas profissões posso dar testemunho, assim, em primeira pessoa, dos riscos que correm: a desvalorização do magistério, a criminalização da advocacia, e etc. São temas por demais complexos para caberem aqui, na simplicidade de uma crônica. Servem, apenas, de pretexto para esse dedo de prosa, sobre o presente e sobre o porvir.

De fato, recentemente, ouvi alguém comentando das profissões que acabariam no futuro, e das que já haviam acabado. Sequer me recordo se o tal comentário abrangia essas profissões em que milito, mas teimo em pensar que no futuro, por mais venturoso que seja, haverá, ainda, a necessidade do aconselhamento jurídico e da representação em juízo; e principalmente, haverá, e muito, a necessidade de alguém que ensine, que explique, que fatie e traduza, em minúcia, a imensidão do conhecimento acumulado.

Penso que, na complexidade dessa malha das relações sociais, o esgarçamento desse ou daquele fio, demandará a habilidade do advogado no reparo dessa trama, dessa estrutura. Na verdade, conforme a evolução tecnológica, econômica e – espera-se – social, avance, novos conflitos de interesse surgirão para desafiar a solução pelo consenso ou, se necessário, pelo litígio.

Creio, também, assim, com a serenidade da fé, que não haverá futuro sem professores. Espero, no entanto, que eles tenham que cumprir um mister, não carregar um fardo. Que sirvam à tarefa do ensino, mas que a educação dos alunos venha do berço. E esses assim, postos ao lado da porta da sala de aula, receberiam seus alunos em agosto, com um sorriso tão típico de retorno às aulas, sem o pesar do final das férias, sem a tristeza do agosto “mês do desgosto”.

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Numa janela qualquer, perdida no tempo, alguém observava, pelo retrovisor de um Opala, a prosa sem pressa na Agência Rebelo, no Bar Recreio e nessa ou naquela esquina da avenida. Deixando o carro parado, e entrando no Café Portal, encontravam Dr. Rômulo tomando um café e plantando, como quem nem sabe o que está fazendo, a tese que lhe serviria mais tarde no salão do júri do Fórum, ainda aquele prédio imponente na esquina da praça.

Num outro ponto qualquer, o Tadeu prendia a atenção de alguém com o simples repousar dos dedos sobre a boca, de um modo que aquela falange que lhe faltava parecia profundamente enfiada no nariz.

Numa janela qualquer, perdida no tempo, o tempo a tudo transforma em lembrança. O tempo a tudo transforma em exemplo. O tempo a tudo transforma em conhecimento.

#RicardoAlvesLima

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