Hoje me aconteceu uma crônica


Creio que só hoje entendi o real significado de uma crônica. Percebi isso porque hoje me aconteceu algo que merecia este texto. E digo isto não porque tenha tecido grandes reflexões sobre o fato, mas pela sua simplicidade e comovente sinceridade. Não sou bom de definições, mas aprendi que a crônica é, basicamente uma reflexão sobre algo do cotidiano, um ocorrido qualquer. Mas, antes das reflexões, vamos aos fatos: fiz uma pausa no trabalho para ir até a padaria, estava à procura de um suco de maçã – uma das raras coisas que não agridem o estômago de um estressado – e, enquanto olhava a vitrine do refrigerador onde estavam as bebidas, percebi que alguém se aproximava.

Era um menininho que deve ter de dois a três anos de idade, traços da Síndrome de Down, cabelos castanhos e olhos claros. Estive com ele muito pouco tempo para ter uma noção da sua altura, mas sei que passava pouco dos meus joelhos, talvez por isso ele tenha vindo até mim e erguido os braços, como se quisesse que eu o erguesse.

São tempos difíceis, amigo leitor, o que eu deveria fazer – eu que não tenho jeito com crianças – talvez fosse dizer ao pequeno que não se aproximasse de estranhos. Ora, seria um gesto válido. Não se deve deixar uma criança pequena se aproximar de estranhos, por isso tantas estórias infantis colonizaram nossas consciências com o medo dos estranhos. Mas, naquele instante, fui pego tão de surpresa que não foi isso que eu fiz.

Mexi no seu cabelo e disse um “oi” para ganhar tempo. Mas ele estava decidido, entendi suas palavras: “quero colo!”. Não pude pensar duas vezes, peguei o pequeno – chamado João – no colo e perguntei “cadê a mamãe?”. Foi quando percebi o pai que, enquanto pagava suas compras no caixa, perguntava para o filho “você fez um amigo, João?”. Foi quando senti a sua pequena mão me dando um tapinha nas costas, e ele respondeu “meu amigo!”. O pai se aproximou e perguntou “amigo do quê?” e ele respondeu “do peito!”. Com algumas brincadeiras e sorrisos o pequeno João foi do meu colo para o pai e, ao sair da padaria me fez um aceno e mandou um beijo.

Foi isso o que me aconteceu, amigo leitor, e que surpreendeu a atendente da padaria que me disse que várias pessoas entraram ali e que o menino não tinha feito isso com ninguém. Hoje – quem diria – fiz um amigo, fui escolhido por ele, no crivo da sua inocência, depois de terem entrado tantos outros na padaria. No meio de uma semana de tantas preocupações e desalentos, liminares, agravos, pesquisas eleitorais, provas por corrigir... encontrei um amigo do peito.

Aos que protestarem dizendo que isso não é amizade, sei que têm sua parcela de razão. Mas lhes respondo que se simbolizamos a amizade com um abraço, se o colo é uma forma de abraço, se a confiança e a inocência merecem esse zelo… Como não posso dizer que João é, a partir de hoje, meu amigo do peito?

O pequeno João, em sua inocência, me aprontou esta crônica sobre a amizade, sobre seus símbolos: no pedido, na acolhida, no colo, no tapinha nas costas... no peito. O pequeno João, em sua sabedoria, sabe que a amizade está ao alcance das mãos.

#RicardoAlvesLima

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