Pouso Alegre, Pouso Alegre


Pouso Alegre - década de 1980 (Foto: acerco do MHMTT)

Pouso Alegre, Pouso Alegre, neste dia do seu aniversário, neste 19 de outubro, ecoam risos vindos do Bar Recreio, ecoam gritos com o estouro de uma boiada, tocada a berrante pela praça, subindo a Getúlio Vargas até o matadouro do Ribeirão das Mortes, ecoam choros pelo atentado ao Senador José Bento, ecoa um pedido de silêncio do Dr. Jorge, vibrando seu martelo no salão do júri no antigo fórum. Ecoam, ainda, as pancadas do saque à padaria alemã quando foi declarada a guerra, os tiros quando os paulistas foram enxotados da Vendinha na Revolução Constitucionalista, os boatos do medo enquanto Fernando da Gata andava ainda à socapa pela cidade.

Pouso Alegre, Pouso Alegre, nesse mesmo dia ecoam crepitando nas chamas os pianos do Conservatório enquanto suas cordas se arrebentavam na sinfonia do fogo, os risos das moças no antigo Santa Dorotéia, o sino da bicicleta que o Ir. Rino trouxera consigo no navio, o sino do papai noel da LB Presentes. Ontem à noite era, ainda, apenas o início do seu passado, Pouso Alegre, e iludida em ébrias canções, te chamavam de cidade que abraça o futuro.

Ai de ti, Pouso Alegre, diria Rubem Braga, pelo pintor que caiu da torre da Catedral, pelos teus cabarés enfileirados no capim gordura, e já movidos teus rios de uma parte a outra, pelas tuas vielas perdidas no fundo do Aterrado, habitadas por todos os peixes do Mandú e dos Sapucaís na enchente que te cobriu em 2000 e em tantas outras até cingirem teus baixios com uma coroa de diques.

Mas, ainda, feliz de ti, Pouso Alegre, diriam os historiadores que encontrariam aqui o resumo e o lastro de toda história, pelos teus poetas que, saídos daqui, fizeram a Semana de Arte Moderna; por ter sido berço do constitucionalismo; por ter rendido e aprisionado nazistas.

Pouso Alegre, Pouso Alegre. Ai de ti, Pouso Alegre. Feliz de ti, Pouso Alegre.

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Perdão, amigo leitor, se este texto não lhe fez sentido algum. Deixe, porém, que me explique. É de Otto Maria Carpeaux a lição de que “presente e passado encontram-se tão indissoluvelmente ligados – seja em relação unilateral, seja em relação dialética – que a nossa civilização não existe, em nenhum ponto da evolução histórica, sem encerrar todo o seu passado”.

Para quem é desta terra, garanto que uma frase ao menos tocou na memória, apenas para lembrar daquelas histórias que, dissolvidas no torvelinho das horas, não entraram para os livros ou para as vitrines do Museu Tuany Toledo. Pouso Alegre é arquivo, é cultura, memória.

É, no entanto, e sobremaneira, cenário. Cenário de tantas histórias que, ainda que quisesse, não caberiam nem em todas as edições desta coluna. Por essas tantas histórias, feliz de ti, Pouso Alegre.

Ricardo Alves de Lima é advogado e professor da FDSM. Membro da Academia Pouso-alegrense de Letras

#RicardoAlvesLima

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