A questão da relação Brasil China


Isaías Pascoal*

Creio que o estremecimento na relação Brasil China hoje é passageiro. Ele é fruto do início do governo Bolsonaro, ainda muito verde e marcado por forte carga ideológica.

Mas a realidade costuma se impor e aos poucos os governos tendem a caminhar para a realpolitik e se tornar mais pragmáticos. Com o Brasil não será diferente. Uma guinada ideológica em política externa costuma trazer prejuízos que podem impactar a performance interna do governo.

No caso brasileiro algumas balizas vão limitar a possibilidade da virada. Primeiro: o país está saindo de uma grave crise econômica, precisa crescer para gerar aumento da arrecadação e de empregos. Isso será vital para a legitimação social do governo. A persistência da crise poderá ser muito problemática. Bolsonaro tem consciência disso e não vai se meter numa bobagem e barbeiragem nas relações internacionais. Pode fustigar Cuba, Venezuela e Nicarágua, que são países inexpressivos no contexto mundial e para o comércio brasileiro. Outra coisa é brigar com países poderosos e que compram muito do Brasil.

Segundo: a China hoje é a segunda maior potência econômica mundial e a primeira no comércio e em investimentos com e no Brasil. Entrar em conflito com ela é loucura. Não podemos nos esquecer que o boom econômico da era Lula foi possível pelo crescimento do comércio com a China. E que parte das desgraças do governo Dilma também deriva do desaquecimento do comércio com o mesmo país, que, naquele momento, vivenciava uma fase de desaceleração econômica.

Esse tipo de relacionamento econômico só pode ser desacelerado ou terminado por motivos intrínsecos à própria economia: crise ou “falência” do país. Insistir em conflitos por motivos ideológicos é insensatez que a racionalidade da economia não permite.

Terceiro: parte do grande apoio de Bolsonaro na eleição veio de setores ligados ao agronegócio que é muito ligado ao comércio com a China. O que o Brasil vende à China são comodities produzidas pelo agronegócio brasileiro: toda rede de produção ligada à soja, parte da exportação de minérios e carnes. Esse setor, com toda certeza, se mobilizaria contra uma política internacional ideológica e economicamente suicida. Ideologias são para consumo interno dos seguidores meio que fanatizados e servem para autoafirmação social. A realidade da economia é bem mais sólida: “é a economia, estúpido”, não podemos nos esquecer desse bordão famoso.

Quarto: há muito tempo o Itamarati construiu uma politica de relacionamento externo que, raridade no Brasil, se tornou política de Estado. Desde Jânio Quadros, com o chanceler Afonso Arinos, passando por João Goulart, com Santiago Dantas e em nenhum momento interrompida durante o ciclo militar, o Brasil procurou ser pragmático, não se aliando automaticamente com qualquer bloco de poder. Quem interrompeu (parcialmente) essa política foi Lula e se tornou motivo de chacota internacional, com graves consequências internas e externas hoje tornadas claras pela “operação lava jato”.

Por tudo isso, o estremecimento da relação Brasil China é como uma nuvem tapando passageiramente o sol. Não tem como prosperar, pois a racionalidade política e econômica de Bolsonaro e dos setores mais conscientes do seu governo (Ministério da Economia, por exemplo) há de se impor aos pendores juvenis de alguns de seus ministros e seguidores.

*É professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais. Possui graduação em em História pela Fundação Tricordiana de Educação, Instituto de Ciências, Letras e Artes de (1985); graduação em Pedagogia pela Fundação de Ensino Superior Vale do Sapucaí (1982); especialização em História moderna e contemporânea pela Universidade Católica de Belo Horizonte; mestrado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (2000); e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2005).

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