Candidata do Sul de Minas diz ter sido convidada a ser laranja por ministro de Bolsonaro


Zuleide Oliveira, de Santa Rita de Caldas, teve pedido de candidatura a deputada estadual indeferido. Ela alega, porém, que o atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, a chamou pessoalmente para ser uma candidata laranja na eleição de 2018. A matéria foi publicada na edição desta quinta-feira da Folha de São Paulo

A então pré-candidata Zuleide Oliveira ao lado de Marcelo Álvaro Antônio (Foto: reprodução)

Uma integrante do PSL de Minas Gerais, moradora de Santa Rita de Caldas (a 47 quilômetros de Pouso Alegre), afirma ter sido convidada pelo ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, então presidente da sigla em Minas, para ser candidata laranja nas eleições de 2018. Ela sustenta ter recebido a proposta para receber verba do Fundo Partidário e devolver parte do valor ao hoje ministro em uma reunião no gabinete do político. A reportagem foi publicada na edição desta quinta-feira (07) da Folha de São Paulo.

A afirmação da candidata leva o PSL regional para o centro da crise desencadeada por uma série de reportagens do jornal acerca de um suposto esquema de candidatas laranjas para desviar recursos do Fundo Partidário, o sistema público de financiamento de campanhas eleitorais. O ministro Marcelo Álvaro Antônio disse à Folha que não se recorda da reunião específica com a candidata e nega que tenha havido qualquer candidatura laranja em Minas. A Polícia Federal e o Ministério Público de Minas investigam o caso.

O que diz Zuleide

Zuleide contou ao jornal que se reuniu com o então presidente do PSL de Minas em seu escritório, em Belo Horizonte, em 11 de setembro de 2018. O encontro teria sido testemunhado por seu esposo e um amigo. Ela afirma que apenas forneceu documentos pessoais para o registro da candidatura. Todo o resto teria sido feito por dirigentes da sigla.

"Eu não entendia de nada, eles que fizeram tudo [para registrar a candidatura], eu não tirei uma certidão minha, eles tiraram por lá, eu só enviei meu documento e eles fizeram tudo. Acredito, sim, que fui mais uma candidata-laranja, porque assinei toda a documentação que era necessária e não tive conhecimento de nada que eu estava fazendo (...) Fui usada, a minha candidatura foi usada para fazer parte de uma lavagem de dinheiro do partido", afirmou Zuleide.

A reportagem informa ter tido acesso a emails e mensagens de áudio trocados por Zuleide com cinco dirigentes do PSL mineiro, comandado à época por Álvaro Antônio, incluindo um recado escrito por Rodrigo Brito, então assessor parlamentar do ministro, com o endereço do escritório do político em Belo Horizonte.

Mensagem de um dirigente do PSL de Minas informando à candidata o endereço do escritório parlamentar de Marcelo Álvaro em Belo Horizonte - Reprodução

Na reunião com Marcelo Álvaro, ela afirma que o político pediu para que ela assinasse o requerimento de solicitação de verba do Fundo Partidário destinado ao então presidente nacional do PSL e ex-ministro de Bolsonaro, Gustavo Bebiano.

"Ele [ministro] disse pra mim assim: 'Então a gente vai fazer o seguinte: você assina a documentação, que essa documentação é pra vir o fundo partidário pra você. (...) Para o repasse ser feito, você tem que assinar essa documentação. E eu repasso a você R$ 60 mil, e você tem que repassar pra gente R$ 45 mil. Você vai ficar com R$ 15 mil para sua campanha. E o material é tudo por nossa conta, é R$ 80 mil em materiais'", afirma Zuleide.

Nem a candidata, nem o PSL declararam gastos de campanha com a candidatura cujo pedido de registro foi indeferido. Ela alega que nunca foi ver os extratos da conta bancária aberta para sua candidatura. Zuleide diz não saber se algum valor foi depositado, uma vez que o controle da conta ficou com os dirigentes do partido.

De acordo com a reportagem, "Zuleide não apresentou a prestação de contas à Justiça por se recusar a atender aos pedidos de dirigentes do PSL.

Zuleide fez uma denúncia ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais em 19 de setembro, mas obteve apenas uma resposta protocolar da Justiça Eleitoral

Pedido de candidatura indeferido

A reportagem informa que o pedido de candidatura de Zuleide foi indeferido pela Justiça Eleitoral por conta de uma condenação de 2016 transitada em julgado. Ela se envolveu em uma briga com uma outra mulher. Segundo Zuleide, a sentença foi enviada ao escritório do PSL de Minas, por e-mail, no final de agosto.

"Eles já sabiam que não ia dar em nada [a candidatura, por ser ficha suja]. Hoje eu sei que eles sabiam que não iam aparecer meus votos, que eu não ia conseguir concorrer às eleições porque eu estava com os direitos políticos suspensos. Eles sabiam de tudo isso. Ele quis falar para mim que não ia dar em nada [a condenação não seria problema] pra mim poder preencher a chapa”.

O convite

Zuleide foi convidada a lançar candidatura pelo partido no final de julho de 2018. A proposta teria sido feita em um telefonema de uma das assessoras do ministro, chamada Cláudia. O primeiro contato com Álvaro Antônio se daria dias depois do telefonema na convenção estadual do partido, na Câmara Municipal de Belo Horizonte, em 28 de julho.

Diz a reportagem da Folha:

Após isso, Rodrigo, o assessor do político, passou a enviar mensagens solicitando documentos.

Álvaro Antônio era filiado ao PR e migrou junto com Bolsonaro para o PSL, tendo sido o deputado federal mais votado em Minas.

No comando estadual do PSL, foi o responsável pela montagem da chapa de candidatos do partido e definiu, com o aval da direção nacional, o repasse das verbas públicas da legenda aos candidatos.

(...)

Ela diz que recebeu 25 mil santinhos —em todos eles, Álvaro Antônio aparece dividindo o espaço— em 25 de setembro, em Belo Horizonte. Nem o PSL de Minas nem o PSL nacional declaram à Justiça gastos com a candidata.

Santinhos guardados por Zuleide - reprodução

O que diz o ministro

À Folha, Álvaro Antônio afirmou não se lembrar de encontros específicos com Zuleide e negou que tenha feito oferta de valores do fundo ou pedido de devolução de dinheiro a ela.

"Em setembro, Marcelo Álvaro Antônio recebeu diversos pré-candidatos e eleitores na sede do PSL. Ele não se lembra ter se reunido especificamente com a sra, Zuleide. O ministro jamais ofereceu ou pediu a devolução de qualquer valor, seja do fundo eleitoral ou de qualquer outra fonte, à sra. Zuleide."

(...)

"as despesas do partido foram devidamente declaradas à Justiça Eleitoral na prestação de contas"

"A campanha político-partidária da Folha de S.Paulo contra o ministro Marcelo Álvaro Antônio, citado em mais de 100 matérias desde 04 de fevereiro, ultrapassou todos os limites do razoável. Ao julgar, condenar e atacar a honra do ministro, o jornal e os jornalistas agiram de forma leviana e, por isso, estão sendo processados."

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