O tempo da política, o tempo dos políticos e o tempo das pessoas


Um ano depois de o Uber iniciar suas atividades em Pouso Alegre, a regulamentação do serviço por aplicativo começa a ser debatida na Câmara. O movimento ocorre às vésperas da nova empresa de transporte começar a operar. Enquanto isso, serviços de mototáxis e moto-entrega permanecem sem regulamentação. Em fevereiro, jovem de 19 anos morreu em um acidente trágico no São João. Ela estava na garupa de um mototaxista que estaria embriagado e não possuía habilitação

A jovem Lohane Nayara dos Santos, de 19 anos, morreu em um trágico acidente no início de fevereiro quando estava na garupa de um mototaxista. Serviço carece de regulamentação no município

Adevanir Vaz*

A busca pela sincronia perfeita entre os três tempos que menciona o título do artigo poderia até ser considerada uma ideia platônica, mas a enorme distância que vai entre eles no pragmatismo do mundo real tem algo de estarrecedor, oferece um bocado de ansiedade e aflição para quem observa de perto.

Na primeira coluna de 'Contexto Político', tocamos em um tema sensível ao cotidiano da população pouso-alegrense, que é também um dos grandes desafios da sociedade contemporânea na busca pela harmonia na mobilidade urbana, o transporte público. Sob a ótica de quem acompanha de perto os movimentos da política local, a ideia da coluna é colocar em perspectiva e trazer bastidores de decisões críticas cujos resultados e consequências têm graves implicações sobre a vida de todos.

O caso do transporte público em Pouso Alegre oferece-nos um exemplo ilustrativo da falta de ritmo que acomete as democracias no mundo. Tendo sua ineficácia e precariedade apontadas inequivocamente pela população como maior problema social do município, exigiu anos de paciência dos usuários e uma troca de guarda na administração municipal para que o setor sofresse uma intervenção que, ainda assim, não é garantia de resolução.

O tempo da política

Ao menos, no fim do mês, quando a empresa Planalto assume a operação do serviço, teremos a exata noção do quanto se avançou ou não sobre o problema. Depois de mais de um ano de processo licitatório, a promessa da Prefeitura e da concessionária, como se pode imaginar, é de um cenário róseo para os usuários. Eis o tempo da política. Ele é moroso, mas, ao menos, dá à população a possibilidade de exercer pressão para promover mudanças.

Em meio à expectativa para o início da operação da nova concessionária vamos a um detalhe, pois não é nele que reside o dito-cujo? Um movimento desencadeado na última semana na Câmara de Vereadores chama a atenção. Um ano e dois meses depois de o Uber começar a operar em Pouso Alegre, os parlamentares começaram a discutir a regulamentação do serviço de táxi por aplicativo. Um dos protagonistas na mesa de discussões é exatamente a empresa de ônibus. Com qual interesse? Obviamente preocupada com a 'qualidade do serviço' e a segurança dos usuários de transporte ou que outra razão ela teria?

Deixando a ironia de lado, é necessário pontuar: é importantíssima a regulamentação do serviço, afinal não se pode querer entrar em um jogo sem seguir regras, bem como é legítima a preocupação da empresa, mesmo do ponto de vista econômico, já que ela ganhou uma concessão pública na qual terá que fazer investimentos para atender os pouso-alegrenses e pela qual espera ser remunerada. Permitir a concorrência de atores privados sem exigir deles, na medida do bom senso, padrões de atendimento e atuação não seria um bom recomeço para o transporte público, ponto.

O tempo dos políticos

Saindo do óbvio, porém, por que só agora os vereadores resolveram discutir o problema então relegado a temas adjacentes? Fica evidente que o início da operação da empresa pesou. Assim como fica difícil acreditar que o interesse da população só tenha pesado agora. Há porém um evento que justificaria a repentina mobilização dos parlamentares: denúncias de agentes de táxi por aplicativos sugerem que há quem se cadastre no serviço e faça corridas "por fora", segundo eles, "de forma clandestina", expondo os usuários a atendimentos com eficiência questionável e causando potenciais transtornos.

Cabe a pergunta: se o serviço ainda não é regulamentado no município, não estariam todos na clandestinidade? Logo, a urgência que parece emergir de forma repentina não seria anterior? Eis o tempo dos políticos, que atendem não exatamente à vontade da maioria, mas, no mais das vezes, aos grupos que melhor se organizam e conseguem exercer a pressão certa, no lugar certo, no momento certo. Com essas três coordenadas, o leitor pode se guiar por suas próprias sugestões.

Quer mais uma pulga para azucrinar sua orelha? O zunido continua a vir do transporte de passageiros. Os serviços de mototáxi e moto-entrega ainda não foram regulamentados no município. Uma lei de 2010 que o fazia até chegou a entrar em vigor, mas caiu por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI).

Seria este um tema prioritário para discussão na Câmara de Vereadores? Em 4 de fevereiro, uma jovem de 19 anos morreu após se acidentar na garupa de um mototaxista em uma das entradas do bairro São João. O condutor se precipitou ao entrar em uma via de trânsito rápido, chocando-se contra a lateral de um caminhão.

O tempo das pessoas

Lohane Nayara dos Santos morreu no local. O choque deixou o capacete que ela usava destruído. A Polícia Militar revelou que o mototaxista que a conduzia não apenas estava embriagado, ele também não possuía habilitação. Ele foi preso em flagrante. Na sequência, foi preso também o dono da empresa de mototáxi para a qual ele trabalhava. Ambos já foram soltos e respondem em liberdade.

Motivo bastante para se iniciar uma intensa discussão na Câmara, certo? Nada disso, os vereadores até mencionaram com pesar o ocorrido e anunciaram a discussão do tema, mas se engajaram antes no debate acerca dos aplicativos, impondo-nos a questão inicial: parece haver um tempo para a política, outro para os políticos e o das pessoas, que, convivendo com a marcha do tempo real, observam seus líderes em um loop infinito.

E neste ponto, para além do tempo, voltamos àquele velho dilema das democracias: o problema da falta de representatividade do sistema representativo... Desde tempos helenísticos, a distorção já era apontada na figura dos sofistas, mas especialmente na sociedade da informação ela também tem a ver com a dificuldade de nossos líderes darem respostas adequadas no tempo adequado. O descompasso provoca uma disritmia inconcebível para uma sociedade que se acelera nas redes de compartilhamento virtual de suas experiências. A ansiedade, o descontentamento, a revolta crescem na medida do descompasso. Que tempos esses!

Jornalista metido a besta e bandeira-sulense radicado há 15 anos em Pouso Alegre. É editor da Rede Moinho 24.

*Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Rede Moinho 24

#Política

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