Gostosuras no tacho: em Silvianópolis, doceira mantém viva a tradição mineira




A coluna Quintal de Minas mergulhou na tradição de um item fundamental da culinária mineira com a doceira Ana Eulália, de Silvianópolis. No cardápio, doce de casca de laranja, de abóbora em calda e doce de figo


É só falar em doce de casca de laranja, doce de batata doce, doce de cidra, que minha mente vai longe, nas festas populares católicas, aqui no Sul de Minas. Não tem como imaginar uma festa de congado, uma festa de Folia de Reis ou até mesmo aquelas festas de santo, de bandeira, típica de zona rural sem os doces de mutirão.



Os doces fazem parte deste ritual de celebração. A tradição manda que as frutas sejam doadas e o processo de feitura são sempre feitos em regime de mutirão, com todo mundo envolvido e tarefas separadas. A criançada vai para o tanque lavar as frutas, os homens descascar laranjas, ralar cidra, cortar e limpar mamão, abóbora; as mestras tomam conta dos tachos quentes e do tempo de apurar os doces. Quanta energia e coletividade estão presentes nestas festas! Tem gente que chama essas iguarias de doces santos, remetendo a ele todo ritual da Festa celebrada.


Pois bem. Recebi uma mensagem da amiga Ana Maria Beraldo que me falou: “Rafael, a Ana Eulália de Santana está fazendo os doces de festa na casa dela e está um sucesso na cidade. Vai lá fazer uma matéria”. Dica linda e saborosa da Ana e lá fui eu para Silvianópolis acompanhar o processo de alguns doces e fazer aquela prosa cheia de tradições culturais com a Ana Eulália.




Como toda mestra dos tachos de Minas, o processo de aprendizagem é na beira do fogão, fazendo e aprendendo com as mães e avós. Esta é a faculdade do sabores e saberes, das crenças e rezas, da fé e da tradição que tanto enriquece Minas Gerais. Foi assim que a Ana Eulália aprendeu com a mãe, Dona Alzira, já falecida.


Em uma tarde quente e saborosa, quente, da quentura do aconchego e da prosa, das risadas e das lembranças, mas, sobretudo, da quentura do fogão e dos tachos de cobres; saborosa, porque falar das coisas de Minas Gerais e do seu povo é um ato de fé, de crença de energia sem igual. Olha, se não tivesse nascido mineiro, dava um jeito de virar!


Na tarde adocicada, Ana fez três tipos de doces para demonstrar o processo à nossa matéria; casca de laranja, abóbora em calda e figo. O doce de casca, já estava com parte do processo adiantado, já que, segundo sua técnica, ele fica de molho na água por 7 dias, trocando a água a cada 24 horas. Isso faz com que a amargura da casca seja retirada.


Quanto ao figo, ela teve a delicadeza de limpar e retirar a casca um a um, cortando o fruto em formato de ‘X’, sem desmanchar, para que entre água no meio da fruta no cozimento.

São mais de 10 tipos de doces produzidos por Ana Eulália, entre doces de potes, com caldas e cristalizados; banana, batata doce, leite, goiaba.


O meu preferido é o doce de cidra. El me traz recordações das festas de Folia de Reis realizadas lá no Picadô, bairro rural de Silvianópolis, organizadas pelos meus avós José Brasileu e Dona Inhana.

Oh, Minas Gerais e seus encantos, de paisagens, de fé, de crença e sobretudo de saberes que passam por gerações! Falando nisso, a Ana Eulália tem uma missão, chacoalhar as filhas para aprenderem a arte destes doces maravilhosos, pois, até agora, não querem nada com o saber fazer, só mesmo comer...


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