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Sobre facadas, incêndios e ipês amarelos

Toda crônica desafia o autor a exercitar um olhar atento sobre os fatos, a buscar um detalhe qualquer que escape à pressa das horas, a procurar uma ordem no caos – por mais clichê que isso pareça. 


Setembro começa, no entanto, com fartura de temas, para todos os gostos, são acontecimentos de cunho político, são tragédias, são fatores climáticos, enfim, o que o cronista quiser escolher, nesse rol de temas, trará substância para a reflexão, ou mesmo polêmica para uma discussão. Vai da importância que se der aos fatos, vai da entonação que se der às frases. 


Contudo, o que mais me chama a atenção não está exatamente nos fatos. O que mais salta aos olhos, na verdade, é a apropriação dos fatos para a construção desse ou daquele discurso. O incêndio do museu nacional, por exemplo, é uma tragédia sob qualquer ótica, mas já se reviraram tantas opiniões e opiniães – como diria o jagunço Riobaldo – que o tema passou do ponto. 


Permita, amigo leitor, que eu me explique melhor. A tragédia do incêndio serviu para todo o tipo de discurso. O vulto dos gastos públicos com o Congresso Nacional foi um desses temas, surgindo cálculos de quanto dinheiro gasto em minutos do funcionamento do parlamento serviria para a manutenção de anos do museu. A precariedade do estado de conservação dos outros museus do país, assim como outros incêndios, como o do museu da língua portuguesa. E tantos outros temas, os mais diversos, todos requentados nas brasas em que ardia o maior acervo histórico do Brasil.


A impressão que tenho é que a tragédia não comove, apenas inflama ânimos já muito exaltados, só para confirmar e reforçar opiniões, quaisquer que sejam. É nesse ambiente que os incêndios começam.


Enquanto escrevo estas linhas sai a notícia de que o candidato à presidência Jair Bolsonaro foi esfaqueado em Juiz de Fora. Trata-se, também sob qualquer ótica, de uma tragédia humana. Toda violência é uma tragédia humana. Mas as apropriações do fato pelos discursos, mais uma vez, foram as mais diversas possíveis. 


Nesse último caso, então, revelaram a velocidade da comunicação. Na internet, quase instantaneamente, a notícia se reproduziu em sites, em mensagens encaminhadas em grupos, em redes sociais em que cada um se torna o protagonista do ódio ou da criação do mártir. 


Aparentemente, e repito: apenas aparentemente, ninguém notou a história se consumindo nas chamas, ninguém notou a pessoa em contorcida expressão de dor. Aparentemente, apenas aparentemente, nossa capacidade de comoção se transformou apenas na vontade premente de vencer uma discussão, de construir a melhor relação argumentativa, de ganhar a pequena guerra do ódio cotidiano, do ranço diário. 


Aparentemente ninguém se lembrou que setembro já traz aqui e ali, algumas flores dos ipês amarelos. Talvez seja essa a redenção desse mês, tão repleto que já se faz de toda sorte de má notícia. 

 

 

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