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Política externa de Bolsonaro pode afetar investimento chinês em Pouso Alegre?

21/01/2019

Planta da XCMG em Pouso Alegre (Imagem: Divulgação)

 

 

Adevanir Vaz, especial para o R24

 

Durante a campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi um crítico contumaz das relações comerciais entre Brasil e China. Uma frase do político resume a forma como encarava o avanço chinês em solo tupiniquim: "A China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil", frisou em mais de uma oportunidade. Pequim respondeu com indicações de que poderia frear investimentos no país. Desde então, a relação do Brasil com seu maior parceiro comercial é incerta.

 

Destino de grandes investimentos chineses, alguns ainda a serem confirmados, Pouso Alegre tem interesse especial na postura do presidente. Em meio à alavancagem de aportes do país asiático no Brasil, o município foi o destino da gigante de máquinas XCMG cujo plano de negócios ainda prevê a atração de empresas de sua cadeia de fornecedores para se instalarem na cidade. 

 

A Xuzhou Construction Machinery Group começou a operar em Pouso Alegre em 2014. Com aporte inicial de R$ 334 milhões, o grupo que tem origem na cidade de Xuzhou, província de Jiangsu, a leste do país asiático, fincava sua primeira planta fabril em terras estrangeiras com planos ambiciosos: alcançar o mercado latino e ocupar posição de destaque entre os líderes mundiais na produção e comercialização de máquinas pesadas.

 

Chegou-se a especular que os investimentos totais do projeto pudessem chegar a R$ 1 bilhão com a chegada das empresas satélites. Elas integrariam um condomínio empresarial que orbitaria a empresa. O problema é que a XCMG começou a operar no Brasil quando já se anunciava no horizonte os primeiros sinais da recessão que devastou a economia nacional.

 

"Continuamos trabalhando nesse projeto sim. A perspectiva é de que isso aconteça à medida que o mercado brasileiro esteja aquecido para tal projeto. A expectativa é positiva, esperamos que isso ocorra o quanto antes", afirmou ao R24 o porta voz e vice-presidente do grupo no Brasil, Tien Dong.

 

Quanto à possível influência das relações entre os países nos planos de investimentos da empresa, Dong argumenta que a XCMG Brasil orienta seus negócios a partir da perspectiva local.

 

"Quando pensamos em XCMG Indústria, pensamos em uma fábrica de origem chinesa, mas brasileira e situada em Pouso Alegre, então, quando se trata das perspectivas da empresa, pensamos da mesma forma - estamos no Brasil e é nesse mercado que queremos crescer", garante. Segundo ele, o que mais deve influenciar a vinda do condomínio empresarial para a cidade é o desempenho da economia. "Torcemos para o crescimento", afirma.

 

Condomínio já contaria com três empresas interessadas

Procurada, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pouso Alegre disse que não iria se manifestar quanto à política externa do Itamarati. De acordo com a pasta, em recente visita à XCMG, o diretor financeiro da multinacional, Way Chien, revelou que o projeto do condomínio industrial "já conta com três interessados, ligados a cadeia produtiva da empresa".

 

Os investimentos chineses no Brasil: XCMG é parte de estratégia de expansão industrial global

Boletim do Ministério do Planejamento de outubro de 2018 mostra que, entre 2003 e 2017, os chineses se envolveram em 250 projetos no Brasil. Do total, US$ 54,1 bilhões já foram investidos. Entre projetos anunciado e em execução, aguarda-se outros US$ 70,4 bilhões. 

 

O economista pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em em Finanças Corporativas Internacionais Aplicadas no Mercado Emergente,  Hsia Hua Sheng, divide os investimentos chineses no Brasil em três períodos. No primeiro deles, entre 2002 e 2010, os aportes miravam grandes obras de infraestrutura. "Como tal, os investimentos chineses concentravam-se em atividades relacionadas às commodities (matérias-primas). Commodities do setor metalúrgico, energético e alimentar dominavam a pauta de exportações brasileiras para China", aponta o professor.

 

Os aportes em Pouso Alegre, que, em 2014, marcaram o maior investimento único da China no Brasil, se insere na segunda fase, quando parte da indústria chinesa passa a se instalar no país como base para sua expansão internacional, caso da XCMG. "Essas empresas investiram inicialmente no Brasil, pois ali detectaram novas oportunidades, um bom momento econômico e o potencial do mercado de consumido interno brasileiro na área de manufatura- especialmente nos setores de maquinaria, equipamentos, automotivo e de aparelhos eletrônicos", explica.

 

Finalmente, a partir de 2013, os chineses passam a mirar o setor de serviços. "As maiores empresas de tecnologia tais como a BYD, Baidu, Grupo Tencent e Grupo Alibaba, investiram em empresas de e-commerce, pagamentos e fintechs no Brasil. Um exemplo interessante é o grupo Didi, do setor de tecnologia dos transportes urbanos, que adquiriu uma das empresas líderes no Brasil, a 99 Táxi", prossegue.

 

Tensão será passageira, avalia sociólogo

Para o historiador e sociólogo Isaías Pascoal (leia análise completa aqui), a tensão entre Brasil e China tende a ser passageira. "É fruto do início do governo Bolsonaro, ainda muito verde e marcado por forte carga ideológica", considera. O professor projeta que a realidade deve se impor, conduzindo o governo a uma postura pragmática. "Os governos tendem a caminhar para a realpolitik e se tornar mais pragmáticos. Com o Brasil não será diferente. Uma guinada ideológica em política externa costuma trazer prejuízos que podem impactar a performance interna do governo", avalia.

 

Pascoal aponta quatro razões principais para a impossibilidade de o governo Bolsonaro levar adiante uma ruptura com os chineses. Em primeiro lugar, cita a atual fragilidade econômica do país, que tende a ser um limitador para posicionamentos mais radicais. "Pode fustigar Cuba, Venezuela e Nicarágua, que são países inexpressivos no contexto mundial e para o comércio brasileiro. Outra coisa é brigar com países poderosos e que compram muito do Brasil", argumenta.

 

Outro ponto levantado pelo professor é o fato de a China ser uma grande potência econômica e maior parceiro comercial do Brasil. "Esse tipo de relacionamento econômico só pode ser desacelerado ou terminado por motivos intrínsecos à própria economia: crise ou “falência” do país", pondera.

 

A base eleitoral de Bolsonaro também limita a de ação do presidente. O agronegócio nacional, grande entusiasta do governo, tem na China seu maior mercado para exportação. "Toda rede de produção ligada à soja, parte da exportação de minérios e carnes. Esse setor, com toda certeza, se mobilizaria contra uma política internacional ideológica e economicamente suicida", aponta.

 

Por último, Pascoal lembra que o Itamarati tem por tradição orientar as relações exteriores a partir de uma política de estado, agindo em defesa de interesses econômicos e estratégicos do país. "Quem interrompeu (parcialmente) essa política foi Lula e se tornou motivo de chacota internacional", observa. Para ele, a racionalidade política e econômica de Bolsonaro e dos setores mais conscientes de seu governo devem se impor.

 

Bolsonaro aparenta cautela no início do governo

Ainda durante a campanha eleitoral, o jornal estatal China Daily, publicação que serve de porta voz de Pequim em alguns momentos, classificou Bolsonaro como 'Trump Tropical' e alertou: romper relações econômicas que, segundo o jornal, vêm sendo benéfica para ambos os países poderia "ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior recessão na história”.

 

Desde que assumiu a presidência, porém, Bolsonaro, se não recuou, também não avançou concretamente sobre a pauta anti-China. Ainda durante o período de transição de governo, chegou a reunir-se com o embaixador chinês, Li Jinzhang. O encontro serviu para botar panos quentes no que poderia vir a ser um entrevero diplomático.

 

Três dias após assumir a presidência, Bolsonaro recebeu do presidente chinês, Xi Jinping, uma carta de saudações. Foi congratulado pela posse e teve pontuada a disposição chinesa para o aprofundamento das relações bilaterais de longo prazo entre os dois países, em mais um claro gesto de aproximação de Pequim.

 

Viagem de parlamentares à China reacende polêmica

Os mais recentes acontecimentos que giraram em torno das relações entre os dois países não foram tão positivos. A viagem de uma comitiva de parlamentares do PSL, partido de Bolsonaro, à China para conhecer uma tecnologia de reconhecimento facial do país asiático gerou graves conflitos internos entre bolsonaristas. O grupo viajou a convite da embaixada chinesa no Brasil.

 

"Ontem, falei por telefone com o presidente Bolsonaro e ele me disse: 'Poxa, Bivar, o pessoal precisa saber que existe uma responsabilidade em ser do PSL, que somos vidraças, que tudo reverbera em cima de nós'", contou ao blog de Andréia Sadi o presidente do partido, Luciano Bivar.

 

Auxiliares do presidente e aliados fizeram chegar à imprensa o descontentamento do governo com a viagem dos parlamentares. A reação chinesa veio por meio do presidente da CCIBC (Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China), Charles Andrew Tang, que fez um alerta ameaçador: "A China só investe onde é bem-vinda. O Brasil precisa desses investimentos e deve ter muito cuidado, se isso continuar o país vai sofrer".

 

Tang ironizou as críticas recebidas pela comitiva de parlamentares: "Achava que o Brasil era uma democracia e um país livre, onde as pessoas podem viajar para qualquer lugar", dando mostras de que, para além do pragmatismo econômico, o diálogo entre Brasília e Pequim não será ameno.

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