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Juros baixos, dólar alto e a vida dura de quem trabalha para viver

01/12/2019

 

O ministro Paulo Guedes -  Agência Brasil

 

 

Adevanir Vaz*

 

Enquanto os juros vinham caindo nos últimos meses, muito em função da letargia econômica, a elite financeira nacional considerava o efeito uma espécie de bônus não planejado pela incapacidade do governo de conferir algum dinamismo à economia. Os analistas rapidamente apresentaram suas narrativas para uma nova virada econômica, com os juros baixos a inibir os financistas e estimular a produção.

 

Mas a narrativa de ocasião se recolheu tão fugazmente quanto se propôs. O recuo pode ser estratégico, mas com a subida do dólar, já se tem de barato que a receita contracionista de Paulo Guedes tende a dar léguas a uma armadilha: a volta da inflação resultante da soma de juros baixos com dólar alto. Vamos ao exemplo da semana: a peste suína na China é sim um dos elementos que explicam a subida da carne, mas a alta do dólar é outro componente importante nesta equação e tende a se espalhar por outros setores. Com demanda e preços atrativos, a fatia para o mercado externo tende a aumentar, enquanto o mercado interno verá minguar a oferta e se dilatarem os preços.

 

O encarecimento do churrasco vai mexer com o humor dos brasileiros, mas há itens que podem enfurecer o cidadão médio, aquele que trabalha duro para pagar as contas no fim do mês,  ainda mais. O setor com maior potencial para aquecer os ânimos e provocar uma reação em cadeia, econômica e socialmente, é o de combustíveis, mas não só, especialmente num momento em que o governo ensaia retirar as desonerações de impostos que incidem sobre a cesta básica.

 

Num país de desempregados, encarecer o custo de vida da classe mais pobre e das famílias de renda média, pode fazer o caldo entornar de vez. Se for o caso, a pauta de costumes empunhada pelo governo Bolsonaro não será suficiente para distrair a plateia enquanto Guedes opera seu plano econômico liberal. Não é coincidência que mesmo o super-ministro, um dos expoentes do liberalismo no Brasil, tenha feito menções ao AI-5 sem qualquer constrangimento.

 

Ademais, a verbalização do 'cujo dito' pelo dito-cujo é mais um fator a ser considerado para responder uma pergunta que muitos vêm fazendo: o medo de protestos logo à frente se baseia em fatos ou na mania e na conveniência de um governo que vê perigos e inimigos na própria sombra? Ao menos sob a perspectiva atual, não há indícios concretos de revoltas ou rebeliões populares. Histeria governamental ou cálculo?

 

O fato é que o governo já correu à calculadora para somar prós e contras de medidas de força, sejam elas baseadas ou não na realidade factual. O envio do excludente de ilicitude para o Congresso, que já rechaçou a ideia em outros momentos, é parte da equação aplicada para medir a resistência da sociedade e suas instituições ao recrudescimento do bolsonarismo.

 

Na louca cavalgada desses tempos distópicos, pode estar se avizinhando a hora da verdade para um governo que pende de forma indisfarçável para o autoritarismo. É nesse ponto que uma pergunta silenciosa repousa como uma enorme pulga irrequieta sobre as orelhas da nação: ruas e porões voltarão ao protagonismo ou o Brasil poderá encontrar uma saída pela tangente para evitar o pior? Dias de angústia em um país perdido em suas contradições.

 

 

 

 

 

*Jornalista metido a besta e bandeira-sulense radicado há 15 anos em Pouso Alegre. É editor da Rede Moinho 24.

 

 

 

 

*Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Rede Moinho 24

 

 

 

 

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